Gambiarras gráficas por Cuba
"Designer esquerdista safada! Vai pra Cuba!!" E aí eu fui 🏃♀️
Após viagens babadeiras, estreio a nova seção dessa newsletter (Viajando na Maionese kkkkk gostaram deste naming?) com o país mais interessante e complexo que já vi: Cuba.
Viajei no final de outubro para Cuba com um grupo de 17 mulheres, e passamos por 5 cidades em apenas 8 dias: Havana, Varadero, Cienfuegos, Trinidad e Santa Clara. Cinco cidades totalmente diferentes entre si. Percorremos essas cidades na companhia de guias cubanos, com destaque para as divas Aylenis e Yaima, que nos apresentaram Havana, cidade preenchida por sonhos, crises, revolta e dificuldades. Para fechar com chave de ouro, tive a felicidade de viajar e dividir quarto com Sarah Caos, minha amiga, cúmplice gráfica, colagista e designer de mão cheia.
Em uma semana de viagem, vimos memoriais da Revolução Cubana, comemos em restaurante que conspirou a independência do país, nadamos no mar caribenho, o furacão Melissa assolou o sul da ilha, presenciamos apagões, jantamos no mesmo restaurante de Gael Garcia Bernal (simplesmente o Che no filme Diários de Motocicleta), fotografei boxeadores cubanos, entramos de penetra em festas do Dia das Bruxas. Muitas doideiras boas!









Como definir Cuba? Letras incríveis desenhadas pela cidade, cantores e músicos de talentos ímpares pelas ruas, artes gráficas e cores espalhadas em meio aos filhos da revolução. É preciso tempo para processar tudo que me atingiu nessa viagem: utopia, sonhos, alegria, arte, modernidade, esperança. Cuba não cabe em um parágrafo. Qualquer tentativa de definir de forma absoluta um país tão ímpar será ridícula.
Cuba é uma ilha, um pouco menor do que Pernambuco, localizada no mar do Caribe. A história do país é marcada por mais de 400 anos de colonização espanhola, mais de 70 anos de forte imperialismo estadunidense e mais outros bons 50 anos de influência soviética. Não à toa o povo cubano me lembrou o povo brasileiro. Eles também são um país profundamente cunhado pelo domínio externo, pelo remix e pela revolta.
A meu ver, uma das maiores tragédias da ilha é estar próxima demais dos Estragos Unidos. Os cubanos estão a apenas 150 km da Flórida, o que torna inevitável o convívio com os estadunidenses. Até 1959, Cuba era o quintal dos EUA, seus governantes eram fantoches ditadores dos gringos, a prostituição e máfia rolavam soltas, o povo estava às traças. O caldeirão político essencial para Revolução Cubana ocorrer com vasto apoio popular. Santa Clara, a cidade que marca o triunfo da revolução, é cheia de placas que demonstram o apoio popular aos guerrilheiros, seja com comida, asilo ou até mesmo artilharia. A consciência política e a revolta são traços marcantes do povo cubano até hoje — são notórios a inteligência e o desenlaço dos cubanos quando se conversa qualquer assunto trivial pelas esquinas.









Como sempre, história e design andam de mãos dadas. Cidades como Trinidad, com forte história colonial e, portanto, heranças visuais da cultura negra africana, são cheias de Adinkras nas grades das casas. Havana e Santa Clara possuem inúmeras peças gráficas e tipográficas que remetem à Revolução Cubana, Che e Fidel: placas, pixos, grafites, fotos em alto contraste, cartazes serigráficos. No centro de Havana, qualquer sebo ou livraria vende cartazes de cinema cubano e da OSPAAAL (Organização de Solidariedade aos Povos da Ásia, África e América Latina). Imagina o lacre. As letras e ilustrações serigráficas típicas da Revolução Cubana são um desbunde, ainda mais impressas num cartaz 90x60 cm.
Dentre vários momentos gráficos marcantes, foi emocionante ver ao vivo a fachada do Che e do Camilo Cienfuegos na Praça da Revolução. A ilustração em alto contraste de Che Guevara, feita a partir de uma foto de Alberto Korda, é uma das imagens mais reproduzidas do século XX. Uma imagem de contexto latino e político. Tá passada???




Outro momento gráfico emocionante foi visitar o ateliê de serigrafia René Portocarrero, onde comprei um cartaz lindo de uma festa do Yarini Habana e fiz amizade com tipógrafos e impressores cubanos. Ver uma prensa Guttemberg em Cuba, no centro histórico de Havana, num lugar com mil dificuldades para encontrar tintas de impressão, e que mesmo assim preserva sua memória em tipos móveis… rapaz, isso me preencheu. A resistência também é gráfica.
Viajar para Cuba tem algo de viagem no tempo. Como foi bom olhar cidades que não são tomadas por outdoors de propagandas feitas em IA generativa! Como foi forte reparar as vielas de uma cidade cujas paisagens não são decididas pela gentrificação. Como foi chocante andar por um país em que não há armas, e o índice de violência é o menor que já vi na minha vida (Europa e Japão sonham, tá?). Eu sabia que viajar por Cuba seria chocante, mas nunca adivinharia que cada dia seria um novo choque.
Desde o triunfo da revolução socialista em 1959, Cuba vive um embargo econômico brutal por causa dos Estragos Unidos. Em algumas épocas o embargo é menos pior, em outras o embargo é avassalador mesmo. Visitei Cuba numa fase especialmente difícil, pois hoje praticamente todos os insumos possíveis são importados e o embargo é ainda mais penoso graças ao governo Trump. Em Santa Clara, no Memorial do Che Guevara, olhei a estátua do divo, as letras entalhadas em pedra numa fonte serifada e lamentei os caminhos tortuosos que a modernidade percorreu desde os anos 60. Não só em Cuba, mas no mundo todo. Para onde foi o sonho?
Devido ao embargo econômico, o povo cubano vive de improviso e gambiarra. Termos estes que os próprios guias usavam para nos explicar o cotidiano na ilha, onde é difícil que cheguem remédios e gasolina, itens estruturais e essenciais barrados pelo embargo estadunidense. Não à toa um dos maiores teóricos sobre gambiarra que temos no Brasil, Rodrigo Boufleur, fez pesquisa de campo em Cuba. Isso também se manifesta no design gráfico da ilha, caracterizado por soluções de verdadeiros gambiólogos — tecnólogos da gambiarra. Lá a desobediência tecnológica e o improviso utilitário (e também gráfico!) andam de mãos dadas. Mais do que isso: se enxergam alternativas criativas e subversivas aos modos de produzir e de ser do mundo capitalista.
Uma das descobertas mais incríveis da viagem foi a loja Clandestina, em Havana. Com e oficinas de confecção próprias e trabalho de designers locais, a loja faz uso do remix para criar estampas que debocham de camisetas de turnês clássicas do Metallica e do Drake, de algoritmos, de memes. A nata da nata. E tudo isso de design gráfico rolando numa rua onde o caminhão do lixo não passava há dias por causa do embargo. Pensa só.






Cuba é um arrebatamento. Um povo resiliente e criativo, mestres das gambiarras e improvisos para conviver com o embargo econômico, uma das paradas mais violentas e brutais que presenciei na minha vida. Um povo que viveu o sonho, e que hoje precisa encontrar novas formas de sonhar para sobreviver e repaginar o próprio futuro.
Se há algo que permeia a história de Cuba, tenho certeza de que é a esperança. É um país com dores semelhantes às do Brasil, porém, de alguma forma, me parece que o povo cubano se mantém ainda mais revoltado e sonhador do que a gente. Como foi incrível perceber que o embargo não domou os cubanos, e que eles ainda cantam e desenham a revolução pelas ruas. Uma coisa é certa: após aprender com os irmãos cubanos, voltei de Cuba uma sonhadora ainda mais radical.
¡Viva Cuba Libre!






Terapia isn't enough. Necesito una metralleta.
camiseta incrível
Que relato delicioso de ler, amei ver os registros fotográficos também. Cuba é um dos meus destinos dos sonhos. Amei poder conhecer um pouco mais através da sua perspectiva. ❤️