Gosto é que nem cu?
Sobre estética, Helvetica, Adam Driver e olhar criativo
No dia-a-dia como designer e ilustradora, a beleza é mais do que um costume: é uma obrigação. Almeja-se o 𝐵𝑒𝓁𝑜. É um labor cotidiano oscilar entre os ditos bom e mau gosto. Porém, o que define esta linha tênue por vezes se configura num capcioso abismo estético. Será que 𝐵𝑒𝓁𝑜 e ₣ɆłØ são ideias tão distantes assim?
Antes de tudo: estética é uma palavra escorregadia. Tem mil sentidos. Se você diz, por exemplo, que estuda estética corporal, você fala a respeito de beleza física e seus respectivos cuidados, tais como maquiagem, ginástica, formato de sobrancelha, etc. Se sua mãe fala que está pensando em fazer uma “decoração estética” na sala, ela usa o termo como adjetivo, como uma qualidade. Porém, quando sua professora de História da Arte B explica “estética expressionista”, você está ouvindo o termo de maneira substantiva, como um conjunto de características que forma um estilo. “Estética” também pode significar simplesmente “bonito”. É, rapaziada, não é que os pós-estruturalistas estavam certos? A linguagem é algo que realmente transborda sem controle.
O mais louco é que, etimologicamente, a palavra “estética” não é ligada diretamente à beleza. Estética significa “faculdade do sentir”. Dessa forma, podemos falar que estética é o jeito que percebemos (ou sentimos) o mundo ao nosso redor. Estética está ligada à percepção de mundo. E aqui eu vou falar sobre teoria da estética, e como nosso olhar criativo está ligado ao que foi construído a partir dela.
A história da teoria estética tem várias abordagens. E todas elas, de uma maneira ou outra, recaem no nosso cotidiano. Podemos entender estética como Platão, que defendia que existe sim uma forma perfeita, uma essência ideal das coisas. Sim, aqui eu estou trazendo pro jogo o Mundo das Ideias do Platão. Nesse Mundo, existiria um formato perfeito de uma Cadeira, de um Carro, de uma Tipografia. Conforme Platão, por mais que haja o caráter sensível e individual de cada um sobre o 𝐵𝑒𝓁𝑜, estaríamos reféns do conceito 𝐵𝑒𝓁𝑜 𝑒𝓂 𝒮𝒾 ou 𝐵𝑒𝓁𝑜 𝐸𝓈𝓈𝑒𝓃𝒸𝒾𝒶𝓁. Ou seja, Platão defende que existe a forma correta de algo ser bonito.
A ideia do 𝐵𝑒𝓁𝑜 𝐸𝓈𝓈𝑒𝓃𝒸𝒾𝒶𝓁 é um conceito revisitado em vários momentos da humanidade nas artes, na cultura… e no design. Pense no modernismo suíço, o dito “estilo universal”: o que é a Helvetica para os modernistas senão a essência máxima do desenho da letra? Há quem diga que a Helvetica é até hoje o desenho de tipos insuperável (spoiler: não é*)
* Não existe desenho de tipografia insuperável. Mas se existisse, seria a Akzidenz Grotesk 🤫
Esse pensamento é um parente não tão distante do classicismo nas artes, que criou regras para definir o fazer artístico a partir do 𝐵𝑒𝓁𝑜 𝐸𝓈𝓈𝑒𝓃𝒸𝒾𝒶𝓁 . Há proporções, tutoriais, medidas matemáticas da beleza. Um corpo humano se mede com 7 cabeças, a orelha tem a mesma medida da altura do nariz, etc. É no classicismo que vem à tona uma estética normativa: o objeto percebido é bonito (ou feio) porque sim e pronto. Não há interação do sujeito, não tem área cinzenta, não tem meio termo; a coisa é bonita e é isso. Fim de caso.

Entretanto, é importante localizar onde surgem essas ideias e medidas do que é 𝐵𝑒𝓁𝑜. Assim como no design e nas artes, a teoria estética está carregada de intenções. Não é à toa que o classicismo nasce na Europa no Renascimento, concebido por homens brancos héteros, e possui referências à antiguidade clássica greco-romana. O Renascimento é uma tentativa de civilizar o mundo cão pós feudalismo medieval. Eles precisavam criar um referencial de mundo. Ou seja, a teoria estética traz indiretamente uma visão de mundo implícita a ela.
A lógica de que há uma “beleza perfeita” me soa, com a permissão do trocadilho, uma ideia meio torta. É possível, num planeta tão vasto e plural, existir Algo que todos nós percebemos e sentimos da mesma maneira? E ainda: é possível que Algo seja a noção absoluta do 𝐵𝑒𝓁𝑜? É aí que começam viéses nocivos, pois o extremo radicalismo da forma beira um fascismo estético. Afinal, uma das maiores características do fascismo é o controle e padronização de mundos.
A teoria estética é uma treta atrás da outra. Discordando de Platão, os filósofos empiristas acreditam na máxima gosto é que nem cu, cada um tem o seu. Sim, isso mesmo: David Hume defendia a ideia de que cada um tem seu gosto, e o gosto não tem realmente um porquê, já que o belo reside nas condições de recepção do sujeito. É a partir da individualidade de cada um que decidimos o que amar ou não, o que é bonito ou não. É amor, pura e simplesmente, e isto basta.
Kant, ao tentar apaziguar o impasse da objetividade classicista e da subjetividade empírica num visão centrista meio a-culpa-não-é-minha-eu-votei-nulo, afirma que o 𝐵𝑒𝓁𝑜 “é aquilo que agrada universalmente, ainda que não possamos justificá-lo intelectualmente”. Em miúdos: a experiência do 𝐵𝑒𝓁𝑜 seria algo universal e comum a todos, mas essa beleza é algo atribuído pelo sentimento do sujeito, e não uma característica intrínseca do objeto analisado.
Eu particularmente amo quando entra na jogada o peso da subjetividade individual na teoria estética, pois é quando pensam que nem tudo é universal neste mundo e tá tudo bem. Como diria Anäis Nin: Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos. Quer um baita exemplo? Pergunte a um grupo de 30 mulheres se Adam Driver é bonito ou não kkkk
Após Kant, Hegel coloca um ponto a mais na discussão e introduz o conceito histórico: a beleza muda de face e aspecto através dos tempos. Esta mudança depende mais da cultura e da visão de mundo vigentes do que da experiência interna do sujeito. Ou seja, algumas belezas fazem parte do espírito de uma época. Ainda na pegada tipográfica, podemos dizer que cada década tem seu estilo de tipo da moda.
Bem, todos os teóricos que mencionei acima são homens. Homens europeus brancos provavelmente héteros. Nessa tentativa de se esbeirar pelo sentir, a dita teoria estética clássica vem de um lugar em que normas são muito bem-vindas. Os referenciais desses autores são normativos. Nada de novo sob o sol. Embora sejam cânones do pensamento da teoria estética… ainda falta algo nesse caldo. Um molho agridoce ou um tempero diferenciado.
E com isso eu quero dizer: me incomoda que a teoria da estética busque entender tanto assim o padrão do 𝐵𝑒𝓁𝑜. E se eu, mulher sulamericana brasileira da Zona Norte do Rio de Janeiro, quero me desbruçar sobre o ₣ɆłØ? Gostar do e̷s̷q̷u̷i̷s̷i̷t̷o̷? Celebrar o b♥r♥e♥g♥a? Apreciar aquele galã feio, sabe? Ao meu ver, 𝐵𝑒𝓁𝑜 e ₣ɆłØ podem ocupar o mesmo lugar. É o mesmo prisma apreciado de diferentes ângulos.
Não é à toa que um dos maiores textos sobre estética das últimas décadas vem de uma mulher: Notas sobre o Camp de Susan Sontag. No ensaio, a gata garota aborda o estilo e extravagância em obras e fenômenos culturais que são considerados de mau gosto ou b♥r♥e♥g♥a♥s. É um debruçar sobre o e̷s̷q̷u̷i̷s̷i̷t̷o̷ e o que nos atrai em algo que está distante do padrão eurocêntrico e austero do 𝐵𝑒𝓁𝑜. Susan, eu te entendo demais!! É impossível aqui não citar o grande John Waters: é preciso ter bom gosto para apreciar a ironia do mau gosto.
No fazer criativo, o ₣ɆłØ é um assunto que incomoda. Por isso, durante muito tempo, eu pensei que eu deveria buscar o 𝐵𝑒𝓁𝑜. Ir atrás das regras dos mestres da Bauhaus. Desenhar o corpo humano pelas proporções dos mestres renascentistas. Medir as proporções das letras perfeitas das gravuras do Dürer. Até perceber que eu vim de um lugar que não é o padrão que tanto tentaram me ensinar; até perceber que eu acho o Adam Driver um gato justamente porque ele é t͓̽o͓̽r͓̽t͓̽o͓̽; até perceber que as pataquadas em RuPaul Drag Race me ensinaram uns bons truques sobre olhar criativo.
Minha vivência enquanto ilustradora me ensinou que tudo é bonito se meu olhar é generoso e brincalhão. É bonito porque me faz bem, traz alegria, é estilera. E não só isso: o 𝐵𝑒𝓁𝑜 às vezes é sério demais, solene demais. O 𝐓𝑜𝓼𝐜𝕠 pode se divertir, o ₣ɆłØ pode ser libertário. O t͓̽o͓̽r͓̽t͓̽o͓̽ carrega uma autenticidade que o 𝐵𝑒𝓁𝑜 não tem. E isso é incrível!
Este estalo me fez buscar outros modos de ver e modos de desenhar. Foi aí que meus desenhos de personagens mulheres começaram a ser distorcidos e desproporcionais. Abracei meu lado monstro, meu lado brutal e meu lado brega. Mais é mais!
Se estética é a faculdade do sentir, eu posso dizer que percebo o mundo pelos meus olhos e pela pele que me veste. Estes são pontos de partida para ampliar meu fazer criativo. Mais do que distinguir os conceitos de 𝐵𝑒𝓁𝑜 e ₣ɆłØ, demonizá-los ou endeuzá-los, quero trabalhar a partir dos meus gostos, brincar com meus interesses e viver um processo criativo divertido. Sem amarras e sem abismos.






