Racismo tipográfico
Desenho de letra, retórica visual e ruínas gráficas
Para toda forma há uma intenção. Boa ou ruim. E aqui eu vou falar de más intenções. Más intenções gráficas.

Pelo título deste texto, você já percebeu que vem aí uma Pílula Difícil de Engolir™. E essa pílula aqui vai ser pior de engolir que uma Amoxicilina: no decorrer deste texto vou abordar como tipografias podem ser ferramentas de perpetuação de dominação, discriminação e poder. E, adaptando uma fala icônica da Akekid, como design também se opera e se faz nas sombras.
Vamos aos fatos. Em junho, fui ao mercado na esquina de casa comprar uns lanchinhos. Toda ida ao mercado é um evento, pois quem é designer está sempre reparando nas embalagens, letras e layouts por aí. Porém, dessa vez uma embalagem de batatinha me chamou a atenção por motivos controversos. Tirei foto e postei nas minhas redes:
Veio aí outro hit inesperado. Na verdade, este é mais um hot take que eu não considero tão hot assim, mas que causou alvoroço. Ao apontar um viés racista num desenho de letra, recebi diversas réplicas exaltadas. Como sempre, o site da saúde mental (Twitter) rendeu pérolas: alguns comentaram que “falar de racismo e tipografia é inventar problema” (imagina ter o cérebro lisinho assim!), que reclamar disso era “importar uma pauta dos Estados Unidos” (ué, gente, o Brasil deixou de ser um país racista e eu não fiquei sabendo?), que isso “não é um problema real” (racismo não é um problema real??), que isso era “uma pauta do Tribunal de Minúsculas Causas” (tudo parece pequeno se você é um asno que não se importa). Tudo normar. É intrigante como pessoas na internet não têm vergonha de sua própria ignorância. A novidade dessa vez foi eu ter farmado, sem querer, pauta em matéria de jornal.

Desconsiderando o modus operandi esperado de twitteiros e a crise do jornalismo brasileiro, acredito que esta situação aponte questões importantes sobre racismo e cultura visual. Essa embalagem de batatinha é o pontapé perfeito para falar de tipografia, retórica visual e a importância de se debruçar sobre nossas ruínas — ainda que sejam ruínas gráficas.
Antes de abordar temas tipográficos, é preciso falar, ainda que brevemente, sobre racismo*. No Brasil, racismo e escravidão estão intimamente ligados. É de se imaginar que o país que sofreu a maior diáspora negra do mundo não vá negar a escravidão e seus meandros, porém os últimos anos de negacionismo e ascensão da extrema direita mostram o contrário. É preciso, então, reafirmar e explicar o óbvio: a escravidão foi uma lógica de mercado colonialista, e como toda empreitada, foram desenvolvidas estratégias, ideologias e propagandas para consolidá-la.
* Podemos entender o racismo como uma série de ideias e práticas discriminatórias que visam afirmar a superioridade de um grupo étnico-racial (normalmente os brancos europeus/do Norte Global) sobre outro grupo (basicamente qualquer grupo étnico originário no Sul Global: pessoas negras, indígenas, asiáticas, árabes, etc). Afinal de contas, os colonizadores europeus foram parar nas Américas, na Índia, no Sudeste Asiático e tantos outros lugares ao redor do globo para roubar pimenta dos outros. Até no Japão os padres jesuítas aprontaram.
Sim, a escravidão também é um projeto. O racismo entra nessa estrutura de projeto como uma ferramenta de dominação, opressão e manutenção fundamental do colonialismo. No contexto brasileiro, essa ferramenta, infelizmente, foi muito bem-sucedida.
Lélia González divide o racismo no continente americano em duas frentes: 1) o racismo por segregação, que rolou em colônias anglo-saxônicas (Estados Unidos), ao segregar espacialmente negros e brancos no apartheid, tendo em sua estrutura a miscigenação como algo impensável; e 2) racismo por denegação, um sistema comum em colônias de origem ibérica (Portugal e Espanha), onde prevalecem teorias da miscigenação, assimilação e democracia raciais para validar a dominação. Em vez de separar negros e brancos, você os aproxima e mantém as estruturas de poder e violência do colonialismo tensionalmente controladas. Conforme Lélia, no Brasil temos um racismo sofisticado, pois a dominação já é tão estabelecida por estigmas sociais que não é preciso uma separação territorial.
Sofisticado. Essa palavra me pega muito. É certeira. Ela pode ser aplicada ao racismo no Brasil voltado às pessoas negras, mas também ao racismo contra grupos étnicos em geral. E ouso dizer que sofisticado descreve muito bem a retórica visual típica da tipografia. Em contextos visuais racistas, a lábia das imagens é ainda mais poderosa e sutil — especialmente num país sem letramento visual nem literacia midiática formal na educação de base. Repito: para toda forma há uma intenção. Quer você repare nela ou não. Numa retórica considerada invisível, a tipografia importa ainda mais.
“Tipografia é como a linguagem se parece”, já diria Ellen Lupton. Se a linguagem é violenta, colonialista, imperialista, o desenho de letra refletirá isso. A tipografia funciona como um reflexo. Afinal, letras são as pegadas da humanidade. E algumas pegadas são mais difíceis de encarar do que outras.

Se uma cultura contém elementos racistas, haverá indícios racistas também em sua linguagem. O signo, o significado e o significante andam de mãos dadas, sobretudo em questões socioculturais. Nisso, percebe-se um aspecto-chave em nossas culturas visuais: o desenho da letra. A letra é o desenho mais abstrato possível, pois não se parece com nada do mundo percebido. A letra A já foi, milhares de anos atrás, desenhada à semelhança do chifre de um búfalo. Aleph. Hoje não. Você olha uma letra A sem serifa e isso não te lembra nenhuma imagem. Ou seja, a letra é a abstração máxima da forma. Justamente por ser tão abstrata, a letra concentra significados potentes em seu desenho. Imagine agora essa potência quando falamos de sentidos nefastos como racismo e imperialismo.
Ao falar sobre cultura visual e racismo, é impossível não mencionar o divo Edward Said, acadêmico e ativista político palestino. No livro Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente, Said cunha o conceito de Orientalismo para descrever a representação desdenhosa e estereotipada do mundo oriental (e aqui entenda Oriente como Sul Global) quando retratada pela cultura ocidental (entenda Ocidente como Norte Global). Quando aborda representações, Said aponta também como obras de arte, imagens, livros, ilustrações, enfim!, a cultura visual monta estereótipos e clichês imperialistas para servir ao soft power do Norte Global. E aqui, pedindo licença ao mestre Said, eu vou incluir nessa lista também as tipografias, que podem servir sim como instrumentos de poder e dominação. O design se faz também nas sombras.
Essa discussão sobre racismo e tipografia não é exatamente nova. Há uns anos li Can a Typeface be racist?, texto de Anne Quinto sobre a história e o contexto das ditas tipografias Chop Suey, nomeadas a partir de um prato típico chinês. Este artigo é um hit justamente por relacionar diretamente tipografia, história gráfica e racismo. As Chop Suey são tipos criados por estadunidenses brancos cujo traço tenta emular porcamente as pinceladas de ideogramas chineses. Essas fontes são seminais no que é considerado “visualidade asiática” nos Estragos Unidos, pois são tipos comuns em letreiros de restaurantes de comida asiática… e, bem, são desenhos de letra amplamente utilizados também em folhetos e cartazes de propaganda do Perigo Amarelo no decorrer dos séculos XVIII e XIX. Ou seja, o desenho estereotipado da letra acompanha o viés imperialista e racista em seus usos. Zero surpresas.
Anne Quito comenta o uso destas tipografias nos Estragos Unidos, mas infelizmente o caso poderia ser analisado de forma semelhante no Brasil. A sinofobia, o racismo com imigrantes não-brancos e o medo do outro são recorrentes por aqui também. Tanto em linguagem quanto em visualidades. No Brasil tivemos (e temos) propaganda anti-amarela, ilustradores consagrados perpetuando black face em seus desenhos, palavras racistas que ofendem e estereotipam negros e asiáticos, e por aí vai. Por exemplo, eu aposto que você já viu na sua cidade algum restaurante de esfiha que o logotipo é uma tipografia latina que tenta emular caligrafia árabe. Ou um caso tipográfico semelhante em restaurante japonês ou chinês. Quando conectamos estes fatos ao racismo sofisticado que opera no nosso país, o imbróglio se torna ainda maior.
Afinal, como há um léxico de palavras racistas, é possível existir também todo um léxico de visualidades racistas. Inclusive um léxico tipográfico. As ditas “Tipografias Étnicas” são o exemplo perfeito disso: são desenhos de letras considerados “rústicos”, “primitivos”, “exóticos” — características comuns em representações orientalistas, para usar o termo do divo Said. Esses desenhos de letra, normalmente desenvolvidos por estadunidenses ou europeus, simulam o traço e as características de alfabetos não-romanos — que levaram séculos para serem desenvolvidos por seus falantes — em alfabetos latinos.
É o caso da embalagem de batatinha que mostrei no começo deste texto, mas pode ser também aquele alfabeto baixado no dafont.com emulando kanji e hanzi. As fontes Chop Suey. Imagine a história milenar de uma escrita, desenvolvida ao longo dos séculos de forma coletiva para retratar a linguagem de um povo, ser utilizada como um instrumento alheio à sua própria origem? Ou para humilhar e estereotipar o legado do próprio povo que a concebeu? Isso é o achatamento da história de um povo. Ou seja, é um apagamento com viés racista intrínseco a ele.

Há quem diga que uma tipografia não pode ser racista, pois racista mesmo é quem a concebeu. Faça-me o favor. Um argumento que vai na mesma pegada de “armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas” kkkkk Que pataquada. Os usos (bons e ruins) recorrentes de uma tipografia marcam e ressignificam sua proposta projetual, e pior ainda é quando a própria concepção de uma fonte é marcada por intenções preconceituosas. Isso não deve ser desconsiderado.
É preciso compreender os mecanismos de dominação para poder combatê-los, e não menosprezá-los. Por que deveríamos nos aproximar de projetos questionáveis sem questioná-los? Ademais, entender as intenções que rodeiam um projeto é fundamental para perceber o que queremos, ou não, perpetuar enquanto designers.
Será que nós, enquanto designers brasileiros, localizados no Sul Global, queremos propagar ideais de povos que nos dominaram (e nos dominam)?
Como diria Donna Haraway, é preciso ficar com o problema. Se não encaramos o abismo, não nos entenderemos com as profundezas. Em miúdos: um trauma precisa ser debatido e trabalhado para que comece a cicatrizar. Acredito que a cultura visual (e a tipografia) possam ter um papel fundamental nesse processo quando falamos de racismo e estereótipos. Da mesma forma que tipografias podem ser desenhadas para perpetuar preconceitos, tipos também podem ser criados para valorizar culturas locais, demonstrar a complexidade de um povo, apreciar o lindo legado de uma escrita milenar. A potência da tipografia não é apenas nefasta, muito pelo contrário!
Desenhar letras é um ato libertário. Letras podem se parecer com qualquer coisa (ou com coisa alguma!) e por isso mesmo é o tipo de desenho que mais abre caminhos. Mais do que limitar as possibilidades da tipografia, condená-la a estereótipos e ferramentas colonialistas, é preciso que sonhemos novas possibilidades de mundos. E isso tem tudo a ver com desenhar letras.
E nossas intenções ao projetá-las.





Pois agora eu necessito julgar todos os estabelecimentos/embalagens que fazem isso!!! Amei o conteúdo, nunca tinha parado para pensar à respeito e agora pretendo lembrar disso sempre antes de usar uma tipografia que pode carregar racismo velado.
Escolher fontes tem sido algo muito mais ativo pra mim, não paro mais em algo que acho bonito e que tem a "cara do projeto". Tento me questionar sobre o que aquela tipografia implica politicamente e socialmente, acredito que isso também que faz um bom design. Fico me perguntando se não é válido ainda sim usar essas fontes étnicas para dizer alguma coisa, mesmo que de forma irônica. Acho que como designer isso seria andar na lamina, enfim, ainda não me sinto preparado pra isso. Texto maravilhoso, Paula!