Tipografia não é para ler. Tipografia é para sentir
A vez que eu irritei funcionalistas
Tipografia não é para ler. Tipografia é para sentir.
Foi lançando esse hot take (que na real eu nem acho tão hot assim) que eu sofri ataques em massa no famigerado Twitter durante a pandemia. Ao discordar do funcionalismo em tipografias, eu enfureci um monte de gente. Era uma galera me chamando de burra, vagabunda, etc. Nada de novo sob o sol. É normal ser atacada na internet por ser uma mulher online com opiniões. Eu já havia sido atacada em massa por reclamar do Pyong Lee no BBB, por falar que os filmes do Zack Snyder são ruins, mas dessa vez algo me chamou a atenção: muitas pessoas estavam irritadas comigo porque eu tive a pachorra de falar nem toda letra é para ler.
E hoje eu ouso dizer que o tempo me absolveu. Tipografia é para sentir sim.

Vamos ao caso. No final do ano de 2021, o Spotify lançou seu característico Wrapped anual: uma campanha que pega os dados de cada pessoa da plataforma e mostra seus artistas, gêneros musicais e hits favoritos num compilado. Naquele ano, o design da campanha baseava-se em criar tipografias de forma automatizada com pegada de arte generativa. Num dos layouts, nomes enormes como ALTERNATIVE HIP HOP apareciam em tipografias apertadíssimas diagramadas em espaços pequenos no layout. Essa tela em específico deu o que falar.
Fiz meu Wrapped na época e achei tudo o máximo. Finalmente um design para ficar na memória! Uma aplicação tipográfica ousada e inesquecível, já que a própria tipografia precisou de uma legenda. Não é comum você se deparar com uma tipografia tão distorcida a ponto de se tornar uma ilustração, uma imagem que não se lê mais.
Entretanto, pelo visto eu fazia parte de uma amostragem pequena. A maior parte da galera viu Wrapped de 2021 e odiou. E odiou mesmo, de fazer vídeos, posts, tweets reclamando sobre isso. Achei essa situação toda muito interessante. As pessoas — designers e gente fora da área — estavam falando de forma aflorada sobre letras e legibilidade. As pessoas estavam opinando sobre design! Fiquei empolgada, e foi aí que eu fiz essas duas artes:
A partir daí abriram-se os portões do inferno da rede social da saúde mental. Talvez eu tenha sido ingênua, pois não pensei que as pessoas levariam design tão a sério. Ou talvez eu tenha subestimado a capacidade de histeria digital coletiva numa rede social. O fato é que fiquei dias recebendo notificações de desconhecidos que estavam irritados demais com a afronta de uma letra não ser legível.
Para além da loucura que foram todos os malucos que se sentiram no direito de me xingar na época por causa de tipografia, acredito que esta situação denuncie pontos interessantes sobre design e função. E, por que não?, sobre design, comunicação e normatividade. Esta tipografia do Wrapped Spotify é um ótimo exemplo de como tipografia importa, por mais que as pessoas nem sempre vocalizem isso.

É impossível aqui não citar uma das frases máximas no mundinho do design: a forma segue a função. Essa é uma adaptação de uma citação do Louis Sullivan escrita num artigo de 1896 chamado The Tall Office Building Artistically Considered, no qual Sullivan defende que a arquitetura (e o design) deve ser sólida, útil e bela. Embora essa ideia da frase possa ter lindos exemplos pela história natural da Terra através da biomimética, parece que o tiro saiu pela culatra. Após 100 anos de funcionalismo na história do design, a tal da Função aponta mais amarras do que abre caminhos. Ao seguir os dogmas tradicionais funcionalistas, designers se colocam em tantas regras e tantos limites que é comum ver projetos pasteurizados, austeros, sem graça. Sendo que design (e tipografia!) pode ser divertido, estranho, versátil, inusitado, engraçado, abstrato! Se falarmos então de desenho de letra, as possibilidades são infinitas. Mas parece que o design nunca pode sair da linha. Ou do grid.
Após anos desenhando letras, entendo que nem toda tipografia é feita para ser lida. Isso significa que existe uma vida para além do funcionalismo, para além da utilidade. Nossas relações com as coisas, as não-coisas, as imagens, as letras, enfim!, se dão por circunstâncias muito mais complexas do que o binarismo de certo e errado da legibilidade padrão. Isto é: a noção de legível e não legível, certo e errado, é uma noção binária e normativa na tipografia. Na época dessa treta do Spotify, eu associei (debochadamente, confesso kkkk) a recusa de uma letra distorcida com conservadorismo, e poucos entenderam onde eu quis chegar. Entretanto, cada vez que vejo a extrema direita causar pânico moral por algo não se adequar ao padrão da família e dos bons costumes, vejo que não estava equivocada. Afinal, por que algo que não cumpre sua função deveria incomodar tanto?
Entender legibilidade como único resultado da afetação que uma tipografia pode causar é simplório e raso demais. Não sou de defender o David Carson, mas no documentário Helvetica ele lança a braba ao falar: Não confunda legibilidade com comunicação. E mais importante ainda: não significa que ela comunica a coisa certa. É isso, sabe? Toda vez que eu olho um cartaz de cinema japonês ou indonésio que eu não consigo ler nada, mas que mesmo assim me atinge, que me faz ir atrás do filme, que me causa curiosidade... bem, toda vez que isso acontece, significa que a comunicação deu certo. Por mais que eu não tenha lido nenhum texto. Na verdade, é o oposto: eu fui lida pelas imagens. As letras (ou ideogramas) que eu não consegui ler, me leram.
É difícil esmiuçar esses meandros tipográficos. Tipografia é uma das retóricas visuais que mais passa despercebida. Num texto considerado cânone na história do design gráfico, Beatrice Warde usa a metáfora do vinho para explicar como entende a relação entre tipografia e função: tipografia deve ser invisível como uma taça de cristal. Em suma, Warde defende que tipografia deve ser tão eficiente ao ponto de ser invisível para não distrair a atenção do leitor ao texto. A boa tipografia deve passar despercebida. Bem, eu odeio vinho, mas de certa forma eu concordo com a Beatrice: não é todo mundo que vai parar o jantar para apreciar o design de uma bela taça de cristal. Porém, entender que tipografia deve ser invisível é algo inconcebível para mim. Eu quero sim que letras sejam vistas e apreciadas. Em tempos cada vez mais acelerados e superficiais, eu quero que um desenho de letra seja memorável, que uma tipografia não passe alheia por aí. Numa sociedade tão atolada por pressa e esvaziamento, eu quero que prestem atenção. Quero que a leitura visual tome tempo.
É também curioso como grande parte dos comentários neste caso do Wrapped resumiu o design da campanha a um ponto específico: “ficou feio”. Como se existisse algo objetivamente feio. Feio para quem? E feio por quê? No texto Gosto é que nem cu? abordei um pouco como beleza e feiura são construídas historicamente a partir de padrões, e como às vezes o esquisito e o inusitado são mais interessantes justamente porque trazem algo diferente à tona. Acredito ser o caso aqui também. Essas tipografias distorcidas causaram desconforto, estranheza, pois saem da expectativa. De certa forma, é uma discussão sobre padrão versus não-padrão. Se fosse uma Helvetica condensada mundana sem efeito, não existiria nenhum ai-mas-que-coisa-horrorosa-achei-feio-porque-é-feio.
“mas, Paula, eu não gostei mesmo desse Wrapped do Spotify! Tá me chamando de nazista por causa disso????” Se você não gostou dessas letras distorcidas, usa avatar de estátua grega no perfil e acha Elon Musk o cara, você deveria vestir a carapuça sim. Porém, o que eu realmente estou propondo aqui é se desbruçar com curiosidade sobre outros caminhos no design. Acredito na (entenda o trocadilho!) função libertária do design, e como bons designs podem fugir às regras estabelecidas pela tradição.
Olhar uma letra e sentir algo num mundo pasteurizado por fontes geométricas de start-ups é um feito. Cada vez mais eu procuro projetos de design que me atingem, que causam comoção, que sejam inovadores e tragam aquele molho agridoce. Chega de design insosso. Eu quero crocância, eu quero design para sentir. E se for num tempero bem esticadão no grid, melhor ainda.







Super concordo com suas colocações! Na minha visão, o uso da tipografia depende do contexto em que ela vai ser usada e da intenção que ela precisa ter. Se a intenção é legibilidade e o contexto é um livro de 500 páginas, uma tipografia otimizada pra isso vai ser a escolha mais óbvia. Agora pro caso do Wrapped e outros tantos que precisa passar um sentimento, que as tipos diferentonas brilhem. 😊
Me sinto cansada com essas tretas de design rsrs. Toda vez que uma marca faz um redesign ou lança algo novo sempre aparece vários textos e vídeos criticando o trabalho alheio.
É importante que um designer tenha a mente aberta e que olhe para a comunicação "louca e jovem" do spotify e pense: como posso ousar naquele projeto "careta"?